segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O que os sindicatos exigiram para aceitar a privatização – e parar a greve - http://observador.pt/2014/12/17/o-que-os-sindicatos-exigiram-para-aceitar-privatizacao-e-parar-greve/

O que os sindicatos exigiram para aceitar a privatização – e parar a greve

A proposta dos sindicatos é extensa e passa por impedir despedimentos em dez anos, entre muitas outras garantias aos trabalhadores e limitações a quem comprar a empresa. E exigiam negociar sem prazo.
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  • miguel santos lowresMiguel Santos
Na proposta de memorando em que exigiu ao Governo a suspensão da privatização, para que a greve fosse desconvocada, os sindicatos da TAP colocaram mais de uma dezena de reivindicações para um braço de ferro negocial que prometia ser longo.
Para aceitarem uma eventual privatização, relançada há um mês pelo Executivo, os sindicatos exigiram, por exemplo, que quem comprasse a empresa ficasse impedido por dez anos de fazer despedimentos coletivos, assim como de fazer subcontratações ou jointventures com outras empresas do setor, limitar a possibilidade de fusões, proteger a antiguidade dos trabalhadores, assim como a resolução de todas as disputas abertas entre trabalhadores e a administração da empresa.
Sem prazo para o final das negociações, a proposta de memorando tornaria difícil o cumprimento do objetivo do Executivo de avançar com a privatização ainda nesta legislatura – tendo em conta as diversas fases obrigatórias no processo, da definição do caderno de encargos aos passos do concurso público, da consulta à decisão final.
Um a um, vejamos o que exigiram os sindicatos, começando pelos direitos dos próprios trabalhadores:
  • Reposição, até 31 de janeiro de 2015, de todos os Acordos de Empresa em vigor nesta data e ratificados pelas Associações Sindicais signatárias – acrescida de impedimento de denúncia unilateral desses acordos até 2022.
  • Garantia de que não haveria um processo de despedimento coletivo ou de redução temporária do período normal de trabalho (Lay off), num prazo de pelo menos 10 anos;
  • Resolução de todas as disputas interpretativas, entre os sindicatos e a administração da TAP, onde tem prevalecido a interpretação da administração de Fernando Pinto;
  • Assegurar o cumprimento das “responsabilidades, vencidas e vincendas, com pensões, complementos de reforma, prémios de jubilação, seguros de saúde e de vida”;
  • Instituição dos mecanismos de proteção das antiguidades (dos trabalhadores), nas eventualidades de fusão ou de aquisição do Grupo TAP;
  • Definição dos mecanismos de participação e envolvimento dos trabalhadores nas decisões estratégicas do Grupo TAP;
  • Resolução “de todas as outras disputas pendentes sobre matérias relevantes”, envolvendo o Governo, o Grupo TAP e todos os sindicatos.
Quanto à operação futura da própria TAP, os sindicatos também fixam uma série de pré-condições ao possível comprador:
  • Impedir no prazo de dez anos uma “subcontratação ou externalização das atividades do Grupo”, assim como “joint Ventures” (alianças);
  • Definir limites estritos, durante sete anos, a operações de Wet Leasing – que são Wet contratos em que a companhia aérea disponibiliza o avião, a tripulação completa, efetua a manutenção e suporta o seguro do avião, recebendo o pagamento pelas horas operadas por parte da companhia operadora.
  • Garantir a manutenção do domicílio e da base operacional da TAP em território português – “no muito longo prazo”;
  • Garantir “a promoção da adequada capitalização do Grupo TAP, com vista ao crescimento sustentado da atividade do Grupo”;
Depois da proposta de memorando, segundo apurou o Observador, o Governo respondeu formalmente aos sindicatos acusando-os de terem rompido o acordo pré-negocial de não colocar em causa a privatização, como condição de cancelamento da greve. Os sindicatos responderam ontem, mantendo a posição negocial.
Segundo o Público de hoje, o Conselho de Ministros decide amanhã se avança ou não para uma requisição civil, como a que foi feita pelo Governo de António Guterres em 1997. A companhia aérea, segundo a sua última tomada de posição,espera antes que o tribunal arbitral decida impor serviços mínimos nos quatro dias de greve marcados. Há pelo menos 10 mil pessoas que já se dirigiram à TAP para pedir o cancelamento de viagens.

A requisição civil na TAP justifica-se - http://observador.pt/opiniao/requisicao-civil-na-tap-justifica-se/

A requisição civil na TAP justifica-se

Os pilotos querem uma fatia maior das acções da companhia. Agora expliquem-me de que modo é que essa pretensão, que impediu o acordo, é parte da defesa do interesse público?
Guterres tentou vender a TAP. Sócrates tentou vender a TAP. E Passos Coelho está a tentar vender a TAP. Diferenças, há uma: desta vez é muito provável que aconteça. E a iminência da privatização assustou muita gente que, passados estes anos, subitamente encontrou nessa intenção um plano neoliberal. Não me vou alongar aqui acerca da privatização, que vejo como necessária para salvaguardar a prestação de um serviço público de qualidade. O que pretendo é discutir a opção do Governo pela requisição civil e este tipo de greves drásticas como “arma” negocial.
Ao contrário do que defende André Azevedo Alves, acho que o Governo fez bem e que a requisição civil não foi um erro político. É que, por definição, os cidadãos confiam no Estado para a defesa do interesse público, e esse estava a ser duplamente atacado. Na desvalorização da empresa (cujo valor para a privatização será avaliado em função do seu desempenho em 2014). E no boicote às reuniões familiares de milhares de portugueses nesta época natalícia (que não tinham alternativa de transporte). Tratando-se de uma companhia aérea, se isto não é um caso extremo, ao ponto de justificar uma requisição civil, é difícil de imaginar o que seria de facto uma situação extrema. Mais: em termos negociais, a defesa do interesse público não pode estar dependente de interesses particulares ou de chantagens. O Estado tinha, portanto, o dever de agir no sentido em que agiu.
De resto, na avaliação desta opção do Governo não pode ser ignorado o actual endurecimento de greves no sector público, surgidas frequentemente em momentos críticos do funcionamento dos respectivos serviços. É o caso desta greve na TAP, em plena época alta de ligações aéreas devido ao Natal, como foi o caso da greve dos professores aos exames nacionais, no Verão de 2013. O que é grave é que, em ambas, fica evidente uma certa disposição negocial dos sindicatos para sacrificar o próprio serviço público na defesa dos seus interesses particulares.
Foi isso que sucedeu nesta greve: porque se opõem aos efeitos que a privatização poderá ter na sua condição laboral, os sindicatos dos trabalhadores da TAP revelaram-se dispostos a sacrificar a companhia e a prejudicar a prestação de um serviço público. E, quando isso acontece, tem de existir da parte do Estado uma resposta à altura: o interesse público não se pode subjugar a interesses particulares.
É claro que alguns alegam que não são interesses particulares que estão em jogo, mas sim a verdadeira defesa do interesse público – neste caso, a resistência à privatização da TAP. Desculpem, mas não é verdade. Primeiro, porque se a questão é a privatização, esse é um dossier político, a ser debatido pelos partidos políticos com o Governo, e não pelos pilotos. Segundo, porque nesta greve sempre estiveram em causa assuntos particulares, e não de interesse público.
Para o confirmar, basta consultar a irrealista lista de exigências dos sindicatos da TAP. E basta ver a razão que levou a que não se conseguisse acordo entre estes e o Governo: os pilotos querem uma fatia maior das acções da companhia, sem contrapartidas financeiras. Agora expliquem-me: de que modo é que a pretensão dos pilotos, que impediu o acordo entre sindicatos e Governo, é parte da defesa do interesse público?
O que me choca realmente é que este tipo de iniciativas sindicais – irrazoáveis e claramente motivadas por interesses particulares – reúna tamanho apoio na opinião pública. Mas aí está a hipocrisia do debate: ninguém quer saber o que motiva os sindicatos, desde que a oposição ao Governo seja feroz e provoque danos políticos. Daí que haja tamanho aproveitamento político destas iniciativas sindicais por parte de partidos políticos cuja representação na Assembleia da República é minoritária. É neste ponto que estamos: o que verdadeiramente interessa a todos é que estas greves são o mais apreciado e eficaz instrumento político para encostar ministros à parede.
Ora, isso parece justificar tudo. Incluindo afirmar, como faz Mariana Mortágua, que esta greve defende os emigrantes portugueses, mesmo que estes ficassem privados de passar o Natal em família (como se a privatização acabasse com as rotas aéreas). Se as razões acima não fossem suficientes, até para combater esta hipocrisia a requisição civil foi uma boa solução.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O Vale e Azevedo da política - Jornal SOL

Há quatro anos, era José Sócrates ainda primeiro-ministro, escrevi uma crónica onde lhe chamei «o Vale e Azevedo da política».
Porquê?
Conhecia pessoalmente os dois, falei com eles em várias ocasiões, e percebi que tinham uma característica em comum: não distinguiam entre a verdade e a mentira. 
Diziam verdades e mentiras exactamente com a mesma cara e a mesma convicção.
Não se podia afirmar que ‘mentiam’, pela simples razão de que os seus códigos mentais eram outros. 
Um dia, num almoço a dois no Pabe, Sócrates disse-me que tinha decidido abandonar a política e ia fazer um mestrado em Londres.
Confidenciou-mo de coração aparentemente aberto, dizendo-me que a política era uma actividade madrasta, que todos saíam de lá mal (Guterres tinha-se demitido pouco tempo antes), pelo que decidira seguir outra vida.
Quando cheguei ao jornal, comuniquei isto à jornalista que acompanhava o PS, para fazer uma notícia.
Perante a minha surpresa, ela respondeu-me: «Isso é falso. Sócrates está neste momento a fazer contactos para concorrer à liderança do PS».
Tive dificuldade em acreditar.
Mas poucos meses depois Ferro Rodrigues demitia-se, Sócrates candidatava-se ao seu lugar e conquistava a liderança socialista.
Palavras para quê?
A propósito, como se sentirá Ferro depois de, com tanta emoção, ter elogiado Sócrates em pleno Parlamento?
Mas, voltando ao nosso Vale e Azevedo, quando comparei José Sócrates ao ex-presidente do Benfica não o fiz inocentemente: sem o dizer, quis sugerir que ele poderia ter o mesmo fim. 
E disse-o a vários familiares, para que ficasse registado: «Depois de Sócrates sair do Governo vai ser preso, como foi Vale e Azevedo depois de sair do Benfica».
Esta previsão assentava em quê?
No conhecimento pessoal que tinha de Sócrates e no que sabia dos sucessivos casos obscuros em que o seu nome aparecia sempre envolvido.
Fora o aterro da Cova da Beira, o Freeport, o Face Oculta, o Tagus Park…, já não falando do diploma da Universidade Independente e dos mamarrachos.
No Freeport tudo apontava na sua direcção – e acabou por escapar por entre os pingos da chuva.
O Face Oculta foi uma vergonha, com a tentativa de silenciar alguns jornais e de usar a PT para comprar a TVI, para expulsar Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz. 
O Taguspark constituiu um escândalo que nunca foi devidamente valorizado: Sócrates ‘aceitou’ ser apoiado por Figo no mesmo dia em que este celebrava um contrato milionário com uma entidade pública!
Por estas e por outras, foi-se percebendo que José Sócrates, tal como não distinguia entre a verdade e a mentira, não destrinçava entre o bem e o mal, podendo envolver-se nas maiores trapalhices.
E a cumplicidade com pessoas que foram caindo nas malhas da justiça, como Armando Vara ou José Penedos, não ajudava nada. 
O aspecto mais estranho nesta história é a total falta de cautela com que agiu, como se estivesse certo da sua impunidade.
Os passos que foi dando tornaram-no um suspeito óbvio aos olhos da Justiça. 
Como é que um homem que esteve ininterruptamente na política durante 15 anos, com rendimentos modestos, poderia comprar um andar num edifício de luxo, adquirir um apartamento em Paris no XVI bairro, viver um ano sem trabalhar numa cidade caríssima, oferecer almoços e jantares a numerosas pessoas em bons restaurantes, viajar constantemente em Executiva, comprar um carro topo de gama?
Como?
José Sócrates expôs-se em demasia.
Claro que, até ser condenado, será presumivelmente inocente.
Mas a quantidade de informação que a investigação acumulou sobre ele é esmagadora.
Esta detenção está a ter um impacto enorme na Europa, onde não me lembro de um ex-primeiro-ministro ser detido por suspeitas de corrupção.
É quase inimaginável que o homem que ocupa o topo da hierarquia executiva de um país receba pessoalmente dinheiro para cometer ilegalidades.
Houve primeiros-ministros suspeitos ou detidos por fraude fiscal, ou por financiamentos partidários ilícitos, mas por corrupção não me lembro de nenhum.
Internamente, as ondas de choque desta notícia provocarão tremendos abalos. 
António Costa estará aflito: depois de acusar António José Seguro por não ter defendido o legado de Sócrates, vê esta herança desabar fragorosamente.
E a detenção do antigo líder é um tiro de canhão nas suas hostes, que integram pesos pesados do socratismo como Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira ou Augusto Santos Silva. 
Sócrates era um daqueles políticos em relação aos quais ninguém ficava indiferente: ou se amava ou se odiava.
Os que o odiavam estão radiantes: finalmente prova-se que eram fundadas todas as críticas que lhe faziam.
Os que o amavam estão de rastos: o homem que os entusiasmou (e que conseguiu, não o esqueçamos, a única maioria absoluta da história do PS) caiu do altar.
E não foi por razões políticas.
Foi por suspeitas de se ter vendido por um prato de lentilhas.
Pior não podia ser.
http://sol.pt/noticia/119042/O-Vale-e-Azevedo-da-politica

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Como podem os pais adequar o ritmo da escola ao ritmo dos filhos?

Partindo da reforma dos ritmos escolares em França, falámos com dois psicólogos sobre o que os pais podem fazer para que o ritmo biológico dos filhos esteja mais adequado ao horário das aulas.
O ano letivo em França arrancou de forma conturbada, com muitas escolas encerradas e manifestações por todo em país. A causa dos protestos? A nova reforma dos ritmos escolares, que faz parte do programa de Hollande, e que prevê uma alteração no tempo de ensino para as escolas primárias públicas. A semana escolar, que até aqui tinha quatro dias (os alunos não tinham aulas à quarta-feira), vai ter 4 dias e meio, sendo que os estudantes passarão a ter aulas à quarta-feira ou ao sábado de manhã.
Por detrás desta alteração está a ideia de que se adequa mais aos ritmos biológicos das crianças, uma vez que o dia escolar passa a ter menos horas, facilitando assim a concentração dos alunos. Esta reforma introduz também três horas de oficinas de atividades extra-curriculares depois das aulas.
E por cá? Que alterações poderiam ser introduzidas nas escolas para adequar o ritmo dos estudos ao ritmo das crianças? Que mudanças mais abrangentes teriam de ser feitas a nível social? E as famílias? Que podem elas fazer para garantir que os seus filhos descansam e fazem outras aprendizagens (e brincam), mesmo quando os pais chegam a casa tarde e cansados? O Observador falou com dois psicólogos especialistas em educação e deixa-lhe algumas dicas.

Um sono saudável

Perder uma hora de sono equivale a perder dois anos de maturação e desenvolvimento cognitivo“. A conclusão foi feita por Avi Sadeh, psicólogo clínico israelita especialista em crianças e famílias, que tem estudado os efeitos da falta de sono nos mais novos. Sadeh conduziu um estudo que envolveu crianças do 4º e do 6º ano, sendo que estas últimas dormiram menos uma hora de sono durante três noites. No final do estudo, os alunos do 6º ano que dormiram menos apresentaram um desempenho escolar equivalente aos alunos do 4º ano.
A maior parte dos pais que consultam a psicóloga Cristina Valente não consegue estabelecer “um padrão de sono regular” para os seus filhos, diz ao Observador a psicóloga, que a propósito deste tema citou o estudo de Avi Sadeh. José Morgado, professor no departamento de psicologia da educação no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), diz que muitas crianças apresentam “um défice significativo de horas de sono saudável” e que por vezes esse défice pode traduzir-se em comportamentos de excitação e de instabilidade.
“Se for com sono enquanto estou a conduzir, o que faço para tentar manter-me acordado? Canto, por exemplo… Os miúdos fazem o mesmo para tentar manter-se acordados: agitam-se”, explica José Morgado. Mas em alguns casos confunde-se isto com perturbações como a hiperatividade ou o défice de atenção, podendo haver um “sobrediagnóstico” destas situações quando, na verdade, as crianças “andam mal dormidas”, diz o professor do ISPA.
Num estudo feito pelo psicólogo israelita Avi Sadeh, os alunos do 6º ano que dormiram menos apresentaram um desempenho escolar equivalente aos alunos do 4º ano.
Apesar de na maior parte das escolas portuguesas as aulas começarem cedo, entre as 8h e as 9h, Cristina Valente está convencida de que a solução não passa por alterar o horário escolar. “Não é pela mudança da hora que devemos ir. Devemos fazer as contas ao contrário, para trás. Fazer as contas e encontrar a hora a que as crianças se devem deitar”. E para determinar o momento em que os mais pequenos devem fechar os olhos todas as noites, é fundamental ter conhecimento da tabela de horas de sono estabelecida pela American Academy of Pediatrics.
Segundo a psicóloga, uma criança do 1º ano deve dormir entre 9 horas e meia e 11 horas e meia por noite. Os jovens entre os 9 e os 12 anos devem dormir “um mínimo de 9 horas”. Cristina Valente explica que há uma “variação de duas horas que está relacionada com o temperamento” dos mais pequenos, mas considera que “o ideal seria que uma criança fosse para a cama às 20h30″.
A psicóloga diz que geralmente os pais “reagem com surpresa à tabela das horas de sono” e que “a compreensão e o conhecimento levam à mudança“. E a mudança passa pelo estabelecimento de rotinas.

Criar rotinas

Se as rotinas estiverem implementadas as coisas correm melhor“, diz Cristina Valente. Que regras podem fazer parte dessa rotina? A psicóloga defenda que os pais “nunca devem deixar a criança ver televisão depois de jantar”. A seguir à refeição, os mais pequenos devem “lavar os dentes e ir dormir”, defende. E a questão de “ir de barriga cheia para a cama” não se deve colocar, até porque “uma criança não deve comer em demasia ao jantar, uma vez que precisa de muito pouca comida no final do dia”. Muitas vezes os pais querem obrigar os filhos a comer mais do que aquilo “de que eles precisam” e isso causa outro problema e alimenta um ciclo vicioso: “Muitos dos conflitos começam com batalhas à mesa, o que, por sua vez, dificulta a ida para a cama“.
José Morgado defende que no horário familiar deve estar bem definida a hora de fazer o trabalho para casa (tpc), a hora de brincar e o momento de arrumar a mochila. O psicólogo diz ainda que os pais não deviam permitir às crianças a utilização do computador e dos smartphones com internet no quarto. “Por vezes os pais nem sabem que as crianças não estão a dormir, que estão com o smartphone”. Antes eram os livros? Talvez, mas a luz dos tablets, defende este especialista, atrasa o sono.
“A solução para as batalhas matinais”, defende Cristina Valente, também passa pela “planificação. “Se os pais conseguirem acordar meia hora mais cedo, se escolherem a roupa à noite, deixarem a mesa do pequeno-almoço pronta no dia anterior… Se houver rotinas implementadas as coisas fluem”, diz.
"Muitos dos conflitos começam com batalhas à mesa, o que, por sua vez, dificulta a ida para a cama"
Cristina Valente, psicóloga
Uma forma de estabelecer rotinas pode passar pela criação de cartolinas com fotografias das crianças em todos os momentos da manhã e da noite, desenhando com as imagens uma sequência: jantar, lavar os dentes, deitar… A sugestão é da psicóloga Cristina Valente, que pensa que isto ajuda os mais pequenos porque “são muito gráficos”.
Outra rotina pode passar por usar o tempo das viagens de ida para a escola para deixar as crianças dormir mais um pouco, diz José Morgado e aproveitar o regresso a casa para conversar sobre o dia escolar.

Trabalhos para Casa (TPC)

Tanto José Morgado como Cristina Valente estão de acordo num ponto: a eliminação dos TPC. Pelo menos para as crianças do 1º ciclo. Para a psicóloga, essa medida “solucionaria o problema imediato dos pais”, uma vez que o ambiente que os mais novos encontram em casa para fazer esses exercícios não é o melhor, depois de um dia de trabalho. “Há miúdos que estão com os pais a partir pedra até às 21h, 21h30… Não é possível“, diz Cristina Valente.
O professor do ISPA defende que o “tempo que os miúdos passam na escola deveria ser suficiente para realizar as atividades”. José Morgado diz que as situações devem ser diferenciadas para crianças no ensino básico e para aquelas que frequentam o ensino secundário e que se os pais insistirem junto dos professores para estes passarem trabalhos para casa, o tipo de exercício proposto deve ser orientado para “o treino de competências” e não para que a criança compreenda em casa aquilo que não aprendeu na escola. “Se ele não aprendeu bem na escola, como é que em casa, sozinho, vai perceber melhor?”. O psicólogo defende que neste último caso podemos estar a “promover assimetrias”, uma vez que nem todas as estruturas familiares são iguais e nem todos os pais têm competências para ajudar os filhos.

Trabalho em casa, em vez de trabalhos para casa

Se não houver TPC, a criança passa a ter tempo para “outro tipo de trabalho”, que José Morgado define como “trabalho em casa”. Os pais podem aproveitar o tempo livre para, em conjunto com os filhos, ver um programa de televisão, contar histórias, ler o jornal e, depois, discutir aquilo que viram ou leram. “Se eu lhe ler uma notícia do jornal e lhe pedir: ‘Faz lá uma síntese deste artigo’… Isto é bom para a escola. Se ele souber discutir ideias, isso é bom”, explica o psicólogo e professor do ISPA.
Cristina Valente aconselha os pais a estabelecer um momento de tranquilidade no final da tarde, em que “os estímulos da casa deviam sossegar por 20 minutos”. A ideia passa por “criar um ritmo parecido entre todos os elementos da família”, em que “se desliga a televisão” no espaço comum, se incentiva a criança a, em vez de estar no quarto sozinha, “trabalhar ao pé da mãe enquanto esta cozinha”. Se os pais tiverem de fazer algum tipo de trabalho devem fazê-lo ao mesmo tempo que as crianças, por exemplo.
"Se eu lhe ler uma notícia do jornal e lhe pedir: 'Faz lá uma síntese deste artigo'... Isto é bom para a escola.
José Morgado, psicólogo
Apesar destes conselhos, a psicóloga pensa que a ideia de um tempo de qualidade ao final do dia é “um mito” para a família portuguesa típica devido à capacidade financeira dos pais e às características do mercado de trabalho nacional. “Esse tempo é ilusório. Não conseguimos estar com eles da forma correta depois de um dia de trabalho quando temos de fazer o jantar. Esse tempo de qualidade não existe de forma objetiva”, diz. Por isso mesmo, a psicóloga pensa que por vezes essa tentativa de estar com os filhos “é tão conflituosa e carregada de tensão”, que acaba por tornar-se preferível deixar a criança dormir. “É mais importante para o meu filho ir para a cama mais cedo do que estar um bocadinho comigo a ver televisão”. Assim, o verdadeiro tempo de qualidade só existe “ao fim de semana”, diz Cristina Valente.

Flexibilização dos horários e trabalho de backoffice

Aqueles que não se conformam com a ideia de que o tempo de qualidade “é um mito” podem tentar levar a cabo algumasmudanças na vida profissional. Mas ambos os psicólogos admitem as dificuldades de fazer isto em Portugal. José Morgado diz que todos estes fenómenos “deviam merecer uma atenção integrada”, para que fosse possível proceder a uma “organização diferente do trabalho“.
O psicólogo refere-se ao “trabalho em backoffice”, por exemplo, que permitiria aos pais trabalharem a partir de casa e que, na opinião do professor no ISPA, faz cada vez mais sentido devido às facilidades permitidas pela internet. Aflexibilização dos horários – permitir ao trabalhador começar o dia mais cedo para sair mais cedo, por exemplo – ou o tempo parcial “são medidas que existem em vários países, nomeadamente entre os nórdicos” e que podiam ajudar os pais, explica José Morgado.
A flexibilização dos horários ou o tempo parcial são exemplos de medidas que podiam ajudar os pais.
Cristina Valente pensa que este movimento deve partir do indivíduo. “Se todos os colaboradores de uma empresa mostrassem que a vida familiar deles é importante e fossem exigentes nesta matéria, a gestão das empresas pensaria duas vezes antes de pôr os colaboradores a trabalhar até às 20h quando o horário de saída é às 18h”, diz.
A psicóloga conta ao Observador que sabe, por experiência própria, que este tipo de alterações é possível. Cristina Valente trabalhou durante anos numa empresa e quando teve filhos não abdicou das horas de amamentação a que tem direito. “No mundo corporativo há uma grande pressão para nunca utilizar essas horas de amamentação”, diz, mas acrescenta que cabe a cada um exigir os seus direitos. A psicóloga foi mais longe e há dois anos tomou a decisão de deixar o ambiente da empresa e começar a trabalhar a partir de casa porque queria estar mais tempo com os filhos. “Ia buscar os meus filhos às 19h e achava que não podia ser. Não ia voltar a ter tempo para partilhar esse tempo com eles”.

Educação a tempo inteiro não é escola a tempo inteiro

Não são só os pais que veem o seu dia de trabalho prolongar-se muito para lá do tempo oficial. Como consequência disso, muitas crianças ficam na escola horas depois de terminarem as atividades escolares. José Morgado diz que os horários estão pensados para ocupar a manhã e uma parte mais curta durante a tarde e que, depois disso, há atividades de enriquecimento curricular.
A questão levantada pelo psicólogo é esta: o local onde se desenvolvem essas atividades tem de ser a escola, obrigando a que as crianças permaneçam nesse local 11 horas por dia? “Talvez na maioria dos casos tenha de ser, porque os pais têm o problema da guarda dos miúdos enquanto estão a trabalhar, mas talvez fosse melhor se as crianças pudessem fazer a parte extra-curricular noutro local”. Isto porque, defende José Morgado, “precisamos de educação a tempo inteiro, mas não precisamos de escola a tempo inteiro”.