segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O que os sindicatos exigiram para aceitar a privatização – e parar a greve - http://observador.pt/2014/12/17/o-que-os-sindicatos-exigiram-para-aceitar-privatizacao-e-parar-greve/

O que os sindicatos exigiram para aceitar a privatização – e parar a greve

A proposta dos sindicatos é extensa e passa por impedir despedimentos em dez anos, entre muitas outras garantias aos trabalhadores e limitações a quem comprar a empresa. E exigiam negociar sem prazo.
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  • miguel santos lowresMiguel Santos
Na proposta de memorando em que exigiu ao Governo a suspensão da privatização, para que a greve fosse desconvocada, os sindicatos da TAP colocaram mais de uma dezena de reivindicações para um braço de ferro negocial que prometia ser longo.
Para aceitarem uma eventual privatização, relançada há um mês pelo Executivo, os sindicatos exigiram, por exemplo, que quem comprasse a empresa ficasse impedido por dez anos de fazer despedimentos coletivos, assim como de fazer subcontratações ou jointventures com outras empresas do setor, limitar a possibilidade de fusões, proteger a antiguidade dos trabalhadores, assim como a resolução de todas as disputas abertas entre trabalhadores e a administração da empresa.
Sem prazo para o final das negociações, a proposta de memorando tornaria difícil o cumprimento do objetivo do Executivo de avançar com a privatização ainda nesta legislatura – tendo em conta as diversas fases obrigatórias no processo, da definição do caderno de encargos aos passos do concurso público, da consulta à decisão final.
Um a um, vejamos o que exigiram os sindicatos, começando pelos direitos dos próprios trabalhadores:
  • Reposição, até 31 de janeiro de 2015, de todos os Acordos de Empresa em vigor nesta data e ratificados pelas Associações Sindicais signatárias – acrescida de impedimento de denúncia unilateral desses acordos até 2022.
  • Garantia de que não haveria um processo de despedimento coletivo ou de redução temporária do período normal de trabalho (Lay off), num prazo de pelo menos 10 anos;
  • Resolução de todas as disputas interpretativas, entre os sindicatos e a administração da TAP, onde tem prevalecido a interpretação da administração de Fernando Pinto;
  • Assegurar o cumprimento das “responsabilidades, vencidas e vincendas, com pensões, complementos de reforma, prémios de jubilação, seguros de saúde e de vida”;
  • Instituição dos mecanismos de proteção das antiguidades (dos trabalhadores), nas eventualidades de fusão ou de aquisição do Grupo TAP;
  • Definição dos mecanismos de participação e envolvimento dos trabalhadores nas decisões estratégicas do Grupo TAP;
  • Resolução “de todas as outras disputas pendentes sobre matérias relevantes”, envolvendo o Governo, o Grupo TAP e todos os sindicatos.
Quanto à operação futura da própria TAP, os sindicatos também fixam uma série de pré-condições ao possível comprador:
  • Impedir no prazo de dez anos uma “subcontratação ou externalização das atividades do Grupo”, assim como “joint Ventures” (alianças);
  • Definir limites estritos, durante sete anos, a operações de Wet Leasing – que são Wet contratos em que a companhia aérea disponibiliza o avião, a tripulação completa, efetua a manutenção e suporta o seguro do avião, recebendo o pagamento pelas horas operadas por parte da companhia operadora.
  • Garantir a manutenção do domicílio e da base operacional da TAP em território português – “no muito longo prazo”;
  • Garantir “a promoção da adequada capitalização do Grupo TAP, com vista ao crescimento sustentado da atividade do Grupo”;
Depois da proposta de memorando, segundo apurou o Observador, o Governo respondeu formalmente aos sindicatos acusando-os de terem rompido o acordo pré-negocial de não colocar em causa a privatização, como condição de cancelamento da greve. Os sindicatos responderam ontem, mantendo a posição negocial.
Segundo o Público de hoje, o Conselho de Ministros decide amanhã se avança ou não para uma requisição civil, como a que foi feita pelo Governo de António Guterres em 1997. A companhia aérea, segundo a sua última tomada de posição,espera antes que o tribunal arbitral decida impor serviços mínimos nos quatro dias de greve marcados. Há pelo menos 10 mil pessoas que já se dirigiram à TAP para pedir o cancelamento de viagens.

A requisição civil na TAP justifica-se - http://observador.pt/opiniao/requisicao-civil-na-tap-justifica-se/

A requisição civil na TAP justifica-se

Os pilotos querem uma fatia maior das acções da companhia. Agora expliquem-me de que modo é que essa pretensão, que impediu o acordo, é parte da defesa do interesse público?
Guterres tentou vender a TAP. Sócrates tentou vender a TAP. E Passos Coelho está a tentar vender a TAP. Diferenças, há uma: desta vez é muito provável que aconteça. E a iminência da privatização assustou muita gente que, passados estes anos, subitamente encontrou nessa intenção um plano neoliberal. Não me vou alongar aqui acerca da privatização, que vejo como necessária para salvaguardar a prestação de um serviço público de qualidade. O que pretendo é discutir a opção do Governo pela requisição civil e este tipo de greves drásticas como “arma” negocial.
Ao contrário do que defende André Azevedo Alves, acho que o Governo fez bem e que a requisição civil não foi um erro político. É que, por definição, os cidadãos confiam no Estado para a defesa do interesse público, e esse estava a ser duplamente atacado. Na desvalorização da empresa (cujo valor para a privatização será avaliado em função do seu desempenho em 2014). E no boicote às reuniões familiares de milhares de portugueses nesta época natalícia (que não tinham alternativa de transporte). Tratando-se de uma companhia aérea, se isto não é um caso extremo, ao ponto de justificar uma requisição civil, é difícil de imaginar o que seria de facto uma situação extrema. Mais: em termos negociais, a defesa do interesse público não pode estar dependente de interesses particulares ou de chantagens. O Estado tinha, portanto, o dever de agir no sentido em que agiu.
De resto, na avaliação desta opção do Governo não pode ser ignorado o actual endurecimento de greves no sector público, surgidas frequentemente em momentos críticos do funcionamento dos respectivos serviços. É o caso desta greve na TAP, em plena época alta de ligações aéreas devido ao Natal, como foi o caso da greve dos professores aos exames nacionais, no Verão de 2013. O que é grave é que, em ambas, fica evidente uma certa disposição negocial dos sindicatos para sacrificar o próprio serviço público na defesa dos seus interesses particulares.
Foi isso que sucedeu nesta greve: porque se opõem aos efeitos que a privatização poderá ter na sua condição laboral, os sindicatos dos trabalhadores da TAP revelaram-se dispostos a sacrificar a companhia e a prejudicar a prestação de um serviço público. E, quando isso acontece, tem de existir da parte do Estado uma resposta à altura: o interesse público não se pode subjugar a interesses particulares.
É claro que alguns alegam que não são interesses particulares que estão em jogo, mas sim a verdadeira defesa do interesse público – neste caso, a resistência à privatização da TAP. Desculpem, mas não é verdade. Primeiro, porque se a questão é a privatização, esse é um dossier político, a ser debatido pelos partidos políticos com o Governo, e não pelos pilotos. Segundo, porque nesta greve sempre estiveram em causa assuntos particulares, e não de interesse público.
Para o confirmar, basta consultar a irrealista lista de exigências dos sindicatos da TAP. E basta ver a razão que levou a que não se conseguisse acordo entre estes e o Governo: os pilotos querem uma fatia maior das acções da companhia, sem contrapartidas financeiras. Agora expliquem-me: de que modo é que a pretensão dos pilotos, que impediu o acordo entre sindicatos e Governo, é parte da defesa do interesse público?
O que me choca realmente é que este tipo de iniciativas sindicais – irrazoáveis e claramente motivadas por interesses particulares – reúna tamanho apoio na opinião pública. Mas aí está a hipocrisia do debate: ninguém quer saber o que motiva os sindicatos, desde que a oposição ao Governo seja feroz e provoque danos políticos. Daí que haja tamanho aproveitamento político destas iniciativas sindicais por parte de partidos políticos cuja representação na Assembleia da República é minoritária. É neste ponto que estamos: o que verdadeiramente interessa a todos é que estas greves são o mais apreciado e eficaz instrumento político para encostar ministros à parede.
Ora, isso parece justificar tudo. Incluindo afirmar, como faz Mariana Mortágua, que esta greve defende os emigrantes portugueses, mesmo que estes ficassem privados de passar o Natal em família (como se a privatização acabasse com as rotas aéreas). Se as razões acima não fossem suficientes, até para combater esta hipocrisia a requisição civil foi uma boa solução.